“I became insane with long intervals of horrible sanity”
Egar Allan Poe
Há uma inversão desprezível na manada humana que se arrasta por este planeta. Uma inversão doentia, infecciosa, corruptível, que quanto mais vive mais se prolifera. E se consolida convertendo tudo o que é força plena de vida em morte fria e irreversível do pensar. Potencial sepultado, despacho de cérebros para uma cripta escura onde a única luz que brilha para os corpos é a das lamparinas dos sacerdotes que trancaram as portas de um templo que presta culto a uma sanidade medonha.
Prelúdio sombrio de qualquer coisa que não vai agradar.
Neste tempo em que só os loucos parecem ter alguma razão, a nossa peste negra com toda a escuridão da normalidade habita nesta casa construída no alicerce podre dos nossos antepassados. E se resta alguma lucidez ela está nas baratas desvairadas que incomodam os moradores, que criam e procriam no lixo da sala, jamais retirado apesar do fedor ardente.
A grandiosidade humana deformada em psicose alucinógena, em sonhos de baratas impotentes diante do mais humilde chinelo. Glorioso estado de coisas que se reforça mais e mais. E que vai vencer essa queda de braço para logo comemorar com a prostituta de um abismo profundo, abraçando a infecção em êxtase sereno. Afinal, isso é normal. Vivemos como um garanhão sem medo de sífilis.
É dessas coisas que terminam como uma roleta-russa: uma hora o revólver batiza alguém.
Mas a sanidade contemporânea não pensa assim. Ela é absoluta em sua calma, feroz em sua estupidez. Apaixonada pelos seus próprios contornos, pelas curvas de suas deformações. Viciada no prazer masoquista de seus grilhões. Confiante no seu fetiche pela dor, preguiçosa em seus movimentos. E orgulhosa de sua prepotência.
Porém uma coisa lhe põe em crise sincera,
uma desafia sua filosofia,
e só esta se põe contra ela:
sua co-irmã mais velha, de nome Insanidade.
Precisamos dar seus atributos para revelar a ironia. Na claridade, loucura é o raciocínio mal conduzido, impossibilidade de andar na via da lógica (ou próximo dela, pois há qualquer coisa de ilógico em todos nós). Na escuridão, loucura é a claridade; torpe é o que não habita as sombras. Demente é quem não se uniu ao cemitério.
O louco foge dos padrões. E assim se acha o diagnóstico. Não quer ganhar dinheiro que não precisa? Louco! Não tira vantagem dos outros? Louco! Não quer ajoelhar-se diante do meu deus? Louco! Não concorda com minha opiniões econômicas? Louco! Questiona a ordem estabelecida? Terrorista (e louco)! Cultua o ceticismo? Louco! E por aí vai o método dos diagnósticos de insanidade. E, obviamente, se a loucura é patologia, a sanidade traz o tratamento (com ares de puritanismo): medo, morte, desprezo, exclusão e negação, enfim, um manicômio de muitos níveis que tenta infligir a dor nos desvairados. E consegue, lhes garanto. Semelhante julgamento a Inquisição fez para bruxas. O que pode a barata diante do chinelo?
Tu duvidas? Diga palavras de mudança, quebre algumas regras, faça perguntas. São caminhos para o manicômio, mas não há vergonha nisso. Percebe a inversão? A culpa, o universo sabe, cai nos ombros de nossos alienistas, não nos internos (em benefício da verdade: uns mereceram, sabemos). E por que é assim? Porque os braços da ignorância são mais fortes que os nossos. O exército dos sãos supera nosso esquadrão de loucos.
Mas lembrem do destino da Invencível Armada.
Mesmo um corpo forte não vence um vírus determinado a corromper. Sejamos, portanto, infecciosos. Incomodemos, por que não? Façamo-nos mais chatos, mais agressivos em nossos espasmos, mais imbecis ao olhar dos zumbis. E façamos o que a razão nos exige há muito:
A revolução dos loucos!