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Um espaço para a reflexão que a filosofia e as ciências nos proporcionam.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

À loucura, por que não?

“I became insane with long intervals of horrible sanity”
Egar Allan Poe

Há uma inversão desprezível na manada humana que se arrasta por este planeta. Uma inversão doentia, infecciosa, corruptível, que quanto mais vive mais se prolifera. E se consolida convertendo tudo o que é força plena de vida em morte fria e irreversível do pensar. Potencial sepultado, despacho de cérebros para uma cripta escura onde a única luz que brilha para os corpos é a das lamparinas dos sacerdotes que trancaram as portas de um templo que presta culto a uma sanidade medonha.

Prelúdio sombrio de qualquer coisa que não vai agradar.

Neste tempo em que só os loucos parecem ter alguma razão, a nossa peste negra com toda a escuridão da normalidade habita nesta casa construída no alicerce podre dos nossos antepassados. E se resta alguma lucidez ela está nas baratas desvairadas que incomodam os moradores, que criam e procriam no lixo da sala, jamais retirado apesar do fedor ardente.

A grandiosidade humana deformada em psicose alucinógena, em sonhos de baratas impotentes diante do mais humilde chinelo. Glorioso estado de coisas que se reforça mais e mais. E que vai vencer essa queda de braço para logo comemorar com a prostituta de um abismo profundo, abraçando a infecção em êxtase sereno. Afinal, isso é normal. Vivemos como um garanhão sem medo de sífilis.

É dessas coisas que terminam como uma roleta-russa: uma hora o revólver batiza alguém.

Mas a sanidade contemporânea não pensa assim. Ela é absoluta em sua calma, feroz em sua estupidez. Apaixonada pelos seus próprios contornos, pelas curvas de suas deformações. Viciada no prazer masoquista de seus grilhões. Confiante no seu fetiche pela dor, preguiçosa em seus movimentos. E orgulhosa de sua prepotência.

Porém uma coisa lhe põe em crise sincera,
uma desafia sua filosofia,
e só esta se põe contra ela:
sua co-irmã mais velha, de nome Insanidade.

Precisamos dar seus atributos para revelar a ironia. Na claridade, loucura é o raciocínio mal conduzido, impossibilidade de andar na via da lógica (ou próximo dela, pois há qualquer coisa de ilógico em todos nós). Na escuridão, loucura é a claridade; torpe é o que não habita as sombras. Demente é quem não se uniu ao cemitério.
O louco foge dos padrões. E assim se acha o diagnóstico. Não quer ganhar dinheiro que não precisa? Louco! Não tira vantagem dos outros? Louco! Não quer ajoelhar-se diante do meu deus? Louco! Não concorda com minha opiniões econômicas? Louco! Questiona a ordem estabelecida? Terrorista (e louco)! Cultua o ceticismo? Louco! E por aí vai o método dos diagnósticos de insanidade. E, obviamente, se a loucura é patologia, a sanidade traz o tratamento (com ares de puritanismo): medo, morte, desprezo, exclusão e negação, enfim, um manicômio de muitos níveis que tenta infligir a dor nos desvairados. E consegue, lhes garanto. Semelhante julgamento a Inquisição fez para bruxas. O que pode a barata diante do chinelo?

Tu duvidas? Diga palavras de mudança, quebre algumas regras, faça perguntas. São caminhos para o manicômio, mas não há vergonha nisso. Percebe a inversão? A culpa, o universo sabe, cai nos ombros de nossos alienistas, não nos internos (em benefício da verdade: uns mereceram, sabemos). E por que é assim? Porque os braços da ignorância são mais fortes que os nossos. O exército dos sãos supera nosso esquadrão de loucos.

Mas lembrem do destino da Invencível Armada.

Mesmo um corpo forte não vence um vírus determinado a corromper. Sejamos, portanto, infecciosos. Incomodemos, por que não? Façamo-nos mais chatos, mais agressivos em nossos espasmos, mais imbecis ao olhar dos zumbis. E façamos o que a razão nos exige há muito:

A revolução dos loucos!

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Esboço de um prefácio para outros dias.

Nossas crenças guiam nosso agir no mundo. Apostamos a vida com as mãos de nossas expectativas e andamos com os pés de nossas idéias. O conteúdo de nossas convicções é o escultor de nossas práticas diárias. No fim, da obra como um todo. E na simplicidade destas constatações se escondem a maior parte de nossos males. Avanço o que quero dizer (sem pedir desculpas aos orgulhosos): somos a fonte de grande parte de nossas dores.


É uma espécie de escravidão desde a infância. Somos acorrentados a estes ensinamentos tradicionais, a estas idéias sobre o mundo que não são nossas. Cedo construímos os nossos fundamentos com as peças dadas pelos outros. E então somos lançados ao futuro com sede de vida, não raramente para encontrar desertos e ajoelhar na areia ardente.

Eu posso não saber qualquer coisa que se passe por trás dos olhos que agora lêem essas linhas, mas de uma coisa tenho certeza: chegará o momento em que, desamparado, buscarás conselhos como muletas, quando tuas pernas tremerem pelo peso dos teus problemas. Aí ficará explícito, se o orgulho não vencer o raciocínio, que o teu mapa é impreciso. Que teu aparato de crenças foi vencido pela dura realidade, contra a qual elas não podem oferecer resistência.

E isso vai acontecer (e que fique a reflexão para quem lê, porque eu vou dar o tiro e sair correndo), porque a estrutura que nos é passada geralmente é raquítica, desnutrida de reflexão. Porque grande parte do que nos é dito sobre a vida não passam de bobagens asseguradas pela sombra da autoridade de alguém sem razão. Afora uns sortudos, de boa educação (e por boa se entenda crítica), na maior parte de nós são fixados risíveis valores do que devemos fazer e mesmo pensar. Valores que dormem imperceptíveis mesmo agora para o leitor.

E quando avançamos contra o mundo com essas noções frágeis, seja pela queda tanto de uma parede quanto a estrutura inteira, damos de cara com a dor aguda dos problemas da vida. Raciocinamos mal. Daí separações, brigas infantis (sempre entre gente grande), abusos, arrependimentos e suicídios (daí também fortunas de livros de auto-ajuda, religiões, cristais mágicos e traficantes).

A fraqueza de nossas convicções se percebe com as crises. Não raro, somos carregados a elas por nós mesmos. Qualquer viajante despreparado se perde com os desvios. O problema é que somos ensinados a focar as partes, nunca o todo. Razão de a tal plenitude nos escapar até um amplo desenvolvimento intelectual. Se aceita por aí que a riqueza, a tradição, a ostentação, as festas e o trabalho são partes importantes da vida, mas quem ataca essas partes com o mínimo de pensamento possível? Quem avalia a importância? E há quem não pense sobre os problemas e só agüente a dor no osso. Passividade irritante que reflete o desconhecimento do que é ser humano.

E vive-se como se a vida fosse para sempre, enquanto o tempo escapa por entre os dedos. Como sair do paradoxo de infelicidade para si mesmo? Abandonando o orgulho e ser humilde e cuidadoso nos raciocínios. Não há salvações fora do cérebro. Não há tratamentos quando a fonte grita deturpação. Não servirão os conselhos para uma pedra inerte. E não haverá reforma para o orgulho inflamado. As coisas são mais simples quando não complicamos, e toda complicação só nasce da mente embaraçada. Desfazer os nós obscuros e ver com clareza: eis o caminho.